Archive for Fevereiro 12th, 2008
Dinheiro (público) de plástico
A vocação para escândalos da classe política brasileira é infinita e cada vez mais surpreendente. Agora, é a vez dos cartões de crédito (e de débito) corporativos, utilizados por funcionários públicos (graduados e outros nem tanto). Ao explodir o escândalo no Governo Federal, ficou evidente a farra com o dinheiro público. Antes, era o dinheiro em espécie, sacado na boca do caixa em bancos, o já lendário “mensalão”. Agora, é o dinheiro de plástico.
Os cartões corporativos foram criados por decreto em 1998, durante o governo FHC. Mas só foram instituídos a partir de 2002, último ano do segundo mandato do ex-presidente.
A utilização de cartões também no governo de São Paulo e em outras administrações estaduais mostra que a cultura de confundir o público com o privado é endêmica. Entretanto, a discussão em torno da instauração de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), tanto no Congresso Nacional quanto na Assembléia Legislativa paulista, foi colocada no nível da política mais rastaqüera, com uma disputa entre “quem jogou mais dinheiro pela janela” entre tucanos e petistas.
Discussões partidárias, por si só, não se sustentam por mais de cinco minutos em um tom racional. As paixões, assim como aquelas sentidas por times de futebol ou religiões, afloram, e aí qualquer tentativa de retomar o prumo correto se torna inútil. O senador Romero Jucá (PMDB-RR), líder do Governo no Senado, esclareceu que as investigações não vão ter como alvo nem o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem o antecessor, Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Aliás, a CPI será mista, ou seja, será realizada tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado. Na Câmara, quem colhe as assinaturas para a abertura da comissão é o deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP). Jucá faz o mesmo no Senado. O acordo entre situação e oposição prevê, entre outras condições, que não serão investigados os gastos particulares do presidente e de sua família. O motivo? A mítica “Segurança Nacional” (expressão muito comum na época do regime militar). Percebe-se mais uma vez que o Estado só existe para se manter e se tornar cada vez mais poderoso, não para resolver os problemas da sociedade.
Se há o mínimo de seriedade e respeito aos valores republicanos, não diminuirão a CPI a um bate-boca. É necessário investigar as origens do problema e cortar o mal pela raiz. O respeito com o erário só se dará se mordomias como tais cartões forem definitivamente extintas. Não há outra forma de evitar desperdícios grotescos de recursos públicos.
Alguns cortes foram realizados, na tentativa de dar uma resposta à sociedade e à mídia, empenhadas em saber sobre o assunto do momento. Mas, como tudo no Brasil não passa de “fogo de palha”, daqui a pouco teremos outro assunto em pauta e este será esquecido. “Cortinas de fumaça” como essa não costumam durar tanto. Ou alguém ainda se lembra do Renan Calheiros?





