Archive for Fevereiro 23rd, 2008
Imprensa x Universal
Os jornais Folha de S.Paulo, Extra (RJ) e A Tarde (BA) receberam uma série de processos por parte de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Três reportagens, uma de cada publicação, repercutiram de maneira negativa entre os adeptos da igreja do bispo Edir Macedo.
Em resposta, foi veiculado no programa “Domingo Espetacular”, da Record (pertencente a Macedo) uma reportagem que criticava especialmente a jornalista Elvira Lobato, da Folha, autora da matéria intitulada “Universal chega aos 30 anos com império empresarial”.
Nada menos do que 58 ações foram impetradas na Justiça contra a Folha em decorrência da reportagem, em cidades das mais diferentes regiões do País. Sete dessas ações já foram extintas, pois os juízes consideraram que os fiéis da Universal não possuem legitimidade para representá-la legalmente. Dessa forma, a expectativa é a de que as outras 51 tenham o mesmo destino.
Considerando a decisão do ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal (STF), de extinguir todas as ações contra veículos jornalísticos que tenham por base a Lei de Imprensa (criada em 1967, durante o regime militar), a tendência é a de que jornais e outros meios de comunicação possam ser apenas processados com base em artigos da Constituição ou do Código Civil (é o caso de algumas das ações impetradas contra os jornais supracitados).
O que se pode depreender de toda essa celeuma (mais uma envolvendo jornalismo e religião) é o fato de que, além de cada um lutar pelos seus interesses corporativos (a Folha, em especial, pela liberdade de imprensa, e a Universal pela própria imagem pública), existem outras motivações para que se questionem métodos de um e de outro.
O fato de a Folha ter feito uma reportagem sobre os 30 anos da Universal não deveria causar nenhum espanto, já que a IURD se tornou realmente um conglomerado empresarial, como por exemplo no setor de mídia (Record, Record News, inúmeras rádios, jornais etc.). Entretanto, desde o caso do “chute na santa” dado pelo ex-bispo Sérgio Von Helde, em 1995, a Igreja Universal vem sendo sistematicamente retratada por boa parte do jornalismo brasileiro como uma “seita”. O termo designa um grupo fechado, de cunho radical. A conotação pode ser a pior possível, já que se dá a designação de “seita” para entidades como a racista Ku Klux Klan, dos EUA.
Portanto, é preciso ter muito cuidado, especialmente quando se fala a respeito de entidades religiosas. A forma de classificá-las pode, sim, influenciar na opinião de quem lê, ouve ou vê matérias a respeito.
Se os jornalistas da Folha (ou de qualquer outro jornal) possuem posições contrárias às defendidas pela Universal, deve-se promover um debate civilizado em torno do tema, sem apelar para ações judiciais. A Folha pode alegar que defende a liberdade de imprensa, mas qualquer cidadão tem o direito de processá-la no caso de se sentir ofendido por alguma reportagem. Contudo, neste caso específico, não há razões suficientemente embasadas para caracterizar qualquer uma das reportagens como uma “agressão” à IURD. Discute-se apenas o crescimento vertiginoso da entidade, que se tornou um poderoso grupo empresarial. Isso é um fato irrefutável. A riqueza da Universal chamaria a atenção em qualquer sociedade. E a mídia não poderia deixar de realizar uma análise do processo que a levou ao status que atualmente ostenta.
O caso é um exemplo de como o Brasil ainda é um país no qual as instituições (meios de comunicação, entidades religiosas etc.) não possuem maturidade suficiente para um confronto de pontos de vista. O trabalho jornalístico ainda é encarado por alguns como uma ameaça. Enquanto essa percepção existir, e enquanto a Lei de Imprensa em vigor não for extinta e uma nova for elaborada, imbróglios desnecessários como esse irão continuar a acontecer.
Boletim Informativo Nº 6
Foi lançada ontem a sexta edição do Boletim Informativo. Houve um certo atraso por parte da Zookoda em dispará-la, mas o envio acabou ocorrendo sem grandes problemas.
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