Archive for Abril 2008
Retratos de uma sociedade
No mais recente podcast, falei a respeito do valor da teledramaturgia como importante obra cultural brasileira, a exemplo do que ocorre com os filmes e os seriados nos EUA. Lá (como aqui), essas obras tendem a ser alvo de elogios e atraem um número expressivo de aficionados além de, ao mesmo tempo, serem bem recebidas por boa parte da crítica como forma de retratação da sociedade estadunidense.
Obviamente, as novelas no Brasil possuem um sem-número de fãs, mas não recebem, na maioria dos casos, um tratamento diferenciado por parte dos críticos quanto à análise do impacto sociocultural e da qualidade das próprias tramas em si. É mais freqüente a exposição da vida dos atores e atrizes como “celebridades”, em detrimento de aspectos comprovadamente mais importantes.
É claro que, também nos EUA, a vida das “celebridades” também é mostrada de maneira ostensiva, até pelo fato de que lá a comunicação de massa é muito mais desenvolvida e estruturada. Entretanto, o espaço para reflexões críticas é, no mínimo, igual.
Falta essa pluralidade à cobertura do jornalismo cultural brasileiro. Mais vale falar de obras estrangeiras do que discutir a importância da história e da influência da teledramaturgia nacional, que é inclusive um produto de exportação dos mais bem sucedidos. A Globo, que durante anos praticamente monopolizou esse mercado, começa a ter um concorrente, a Record. Com sua “Vidas Opostas”, a emissora de Edir Macedo iniciou um processo de “incômodo” a líder nas medições de audiência pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística). Se consolidando como segunda colocada, desbancando o SBT, a Record se apoiou no mesmo tripé consagrado da Globo para viabilizar sua ascensão (jornalismo, entretenimento – especialmente com as novelas - e esportes).
Tudo o que a novela de Marcílio Moraes propôs foi retratar uma parte considerada não muito palatável para os padrões televisivos, a realidade das favelas. A ação rápida contagiou o público, que passou a olhar as tramas da Globo não mais com o mesmo entusiasmo.
Pode-se explicar a visível queda de audiência das novelas da ainda líder por um simples motivo: falta de qualidade (e de opções no elenco também). Por mais que a Globo tenha os melhores atores, atrizes, autores, diretores e, é claro, estrutura, falta algo que não pode ser comprado: criatividade. Há um desgaste natural depois de quatro décadas de produções. Uma rápida olhada no site Teledramaturgia é suficiente para constatar o número enorme de produções já realizadas, desde as novelas e minisséries de época até as de trama atual, conforme o contexto histórico.
Atualmente, a Globo produz novelas de medíocres para ruins, enquanto com sua minissérie tradicional que é iniciada todo início de ano, geralmente consegue ótimos resultados, pois investe todos os recursos. “JK” (2007), de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, que retratou a vida do ex-presidente Juscelino Kubitschek, foi primorosa, da concepção gráfica até a trilha sonora, passando por elenco e trama. Foi uma demonstração clara de capacidade singular do país em gerar produções televisivas.
As pressões sobre os autores de novelas impedem que esse capricho na produção seja mantido. A pressa em gravar os capítulos, a longa duração (em média, seis meses) e a esmagadora necessidade de conquistar determinado número de pontos no Ibope (abaixo de 40, o que já seria um sonho para outras emissoras, é um desastre para a Globo), colocam a teledramaturgia brasileira em xeque.
Outro fator que agrava a situação é o descontentamento de atores e atrizes veteranos, formados nas melhores escolas de teatro e que possuem currículo invejável de televisão, por perderem cada vez mais espaço para as novas gerações de atores, que foram diretamente colocados na televisão predominantemente por razões estéticas. Não fosse pela geração dos anos 1980, especialmente com o núcleo comediante que despontou em “TV Pirata” (Diogo Vilela, Guilherme Karam, Débora Bloch etc.) e outros como Edson Celulari e Cláudia Raia, haveria um enorme hiato entre profissionais do gabarito de Lima Duarte, Tarcísio Meira, Regina Duarte e Glória Pires e os modelos da atualidade, como Reynaldo Giannechini e Grazielli Massafera.
Mas a Globo encontrou a fórmula para ao menos sanar parte dos problemas. Da mesma forma que se utilizou em larga escala de um elenco com formação enraizada no teatro, busca agora em profissionais que se dedicam mais ao cinema a esperança de tramas mais bem sucedidas. A excelente safra encabeçada por Wagner Moura, Lázaro Ramos, Débora Falabella, Selton Mello e Matheus Nachtergaele vem garantindo os poucos momentos de alívio da emissora carioca. Porém, no caso de Selton, já há alguns anos ele vem se dedicando à Sétima Arte, devido ao excelente momento do cinema nacional, “turbinado” por incentivos governamentais e uma gama de patrocinadores liderada pela Petrobras.
Pela ascensão da Record, e pela história inigualável que possui no setor, a Globo precisa de uma renovação de seus autores. Não uma simples troca de consagrados como Silvio de Abreu e Gilberto Braga por outros de uma nova geração. A experiência deles é importante, ao mesmo tempo em que abrir espaço para outros também. É possível conciliar as duas coisas, desde que se invista em histórias que consigam reunir elementos atrativos (em especial, os que envolvem suspense) para o telespectador, como nos sucessos “A Próxima Vítima” (1995), “Roda de Fogo” (1986) e “Selva de Pedra” (1972), esta última a única a ter tido, no último capítulo, 100% da audiência.
VÍDEO: CENAS COM ALGUNS DOS MELHORES MOMENTOS DA TELEDRAMATURGIA NACIONAL
Podcast Nº 6
Está no ar, com um pequeno atraso, a sexta edição do podcast, abordando a teledramaturgia brasileira. Um resumo do ponto de vista que irei abordar no próximo texto a ser publicado no blog.
Ouça abaixo aqui ou na seção Podcast. Bom final de semana a todos.
Boletim Informativo Nº 15
Com novo visual, chega nesta sexta-feira a décima-quinta edição do Boletim Informativo deste site aos e-mails cadastrados.
Outras mudanças, tanto no próprio Boletim quanto no site, serão gradativamente implementadas.
Reunião histórica

A posse do novo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, promoveu um inédito encontro entre o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e três dos quatro ex-presidentes ainda vivos: Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor de Mello e José Sarney. A exceção foi Itamar Franco.
CRÉDITO DA FOTO: ANDRÉ DUSEK/AGÊNCIA ESTADO
Paraguai e Itaipu

A usina hidrelétrica de Itaipu, a maior do mundo, resultado de um acordo binacional envolvendo Brasil e Paraguai, se tornou o centro das discussões decorrentes da vitória do ex-bispo Fernando Lugo nas eleições presidenciais do país vizinho, o que encerrou uma hegemonia de 60 anos do Partido Colorado.
Lugo sustentou como sua principal bandeira de campanha a renegociação do acordo sobre Itaipu. O objetivo é fazer com que o Brasil pague mais do que os US$ 350 milhões anuais para o Paraguai pelo uso de 45% da energia gerada. Pelo acordo, cada país tem direito a 50% da produção. Entretanto, os paraguaios só precisam de 5% do total, o que já garante 95% da energia consumida no país. Ou seja, o Paraguai é proprietário de 45% de excedente, que o Brasil compra por necessitar dele, dada a enorme demanda (no total, Itaipu gera 24% do que o Brasil precisa).
O acordo prevê a venda ao que se chama de “preço de custo”, ou seja, abaixo do “preço de mercado” praticado internacionalmente. O novo presidente do Paraguai deseja que seja pago o preço de mercado, a fim de que o governo possa captar mais recursos e assim investir no país, o segundo mais pobre da América do Sul (atrás apenas da Bolívia).
O governo brasileiro não se dispõe a mexer no acordo, o que é perfeitamente compreensível. A usina de Itaipu é a maior geradora de energia para o país por um custo baixo, fruto de um acordo vantajoso para ambas as partes. O Paraguai se beneficia da produção pois a usina está na fronteira com o Brasil, donde a necessidade de um acordo binacional. Em termos de demanda, o Paraguai é insignificante, haja vista a lamentável situação econômica em que vive. Precisaria primeiramente se fortalecer, alcançando um nível de prosperidade que exigisse mais energia, visando utilizar toda a porcentagem a que tem direito sobre a produção de Itaipu. Não faz sentido querer se beneficiar da usina apenas vendendo energia, pois isso pouco representa para um país que precisa de muitos recursos a fim de sair de uma situação complicada. É necessário que Lugo fale em alternativas econômicas, com o intuito de melhorar as condições estruturais do Paraguai. Buscar mais dinheiro do Brasil via Itaipu é pensar de forma imediatista e insuficiente. Mesmo que o acordo seja renegociado, dificilmente o reajuste no preço garantirá um “fôlego” para os combalidos cofres paraguaios.
FOTO: A USINA HIDRELÉTRICA DE ITAIPU BINACIONAL





