Os aloprados e as eleições de 2010
Sempre fui contra a antecipação de debates eleitorais. E me mantenho assim por estar convicto de que não há razão para tanto alarde sobre possíveis candidatos, seja qual for o cargo em questão. Obviamente, a presidência é muito cobiçada, mas qual é a serventia de se discutir quem será candidato em 2010? Pior, qual é a utilidade de se fazer uma pesquisa, com mais de dois anos e meio para as eleições? A quem interessa essa exposição?
Somente aos potenciais candidatos, pois aos eleitores, não resta nada a não ser a leitura de intermináveis análises conjunturais. Fala-se até na possibilidade um “terceiro mandato” de Lula. Os entusiastas da idéia, como o deputado federal Devanir Ribeiro (PT-SP), dizem que pode ser apresentada em breve uma proposta de emenda constitucional que permitiria a convocação de um plebiscito, no qual a população decidiria se Lula teria o direito de concorrer mais uma vez. Tudo na esteira de outro male, as famosas “pesquisas de popularidade”, feitas constantemente para medir a aceitação de um governo.
Em primeiro lugar, a proposta de um plebiscito é, por si só, um erro, pois não há motivos para desgastar o Congresso Nacional e se perder tempo votando matérias de interesse partidário. Ao PT só interessa se manter no poder, como a todos os outros partidos. A diferença é Lula e sua popularidade. Se ele cumprir o que diz, não concorre mesmo que isso se torne possível pela Lei. FHC priorizou a aprovação da emenda de reeleição, em 1997 (até hoje se suspeita de uma compra de votos, nunca comprovada). Será que Lula faria o mesmo por um terceiro mandato?
Considero improvável. Lula não vai querer se candidatar, mas quer fazer o sucessor. E é aí que reside a dificuldade. Dentro do PT, ninguém teria condições de herdar o espólio de Lula, com a implosão de expoentes do partido depois da crise do mensalão. A “menina dos olhos” do presidente é a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Mas ela está envolvida no escândalo do momento, o do “Dossiê FHC”. Um levantamento feito por um(a) misterioso(a) funcionário(a) – suspeita-se da secretária-executiva da ministra, Erenice Guerra - sobre as despesas com cartões corporativos na gestão de Fernando Henrique pode ter enterrado as chances de Dilma. Lula tenta defendê-la do tiroteio verbal oposicionista (e até midiático), mas sabe que dificilmente ela conseguirá escapar da impopularidade. E sem uma boa imagem perante o eleitorado, não se forma uma candidatura viável.
Com isso, acirram-se os ânimos nas hostes tucanas. O governador de São Paulo, José Serra, aparece como favorito nas pesquisas. Lidera em todos os cenários. Mas tem no deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) um provável adversário. Os dois são inimigos declarados, o que tornaria a disputa tumultuada, como em 2002, quando os dois trocaram inúmeras acusações e abriram o caminho para a primeira vitória de Lula.
Mas a maior preocupação de Serra é, de acordo com analistas, evitar que o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (também do PSDB), fortaleça ainda mais as suas pretensões de ser presidente.
O PSDB tem Serra como “candidato natural”. Mas Aécio poderia repetir o que o ex-governador paulista Geraldo Alckmin fez em 2006: insistir em um projeto pessoal e vencer o paulista na disputa interna, mesmo que para isso tenha de pagar o alto preço de uma ruptura nas bases do partido. Algo que ocorre agora em 2008, com a disputa entre os que defendem o apoio do PSDB ao prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), que tentará ser eleito ao cargo neste ano (em 2004, foi vice na chapa vencedora encabeçada por José Serra) e os favoráveis a candidatura própria, de Alckmin. Alguns defendem a tese de que o projeto de Aécio é tão audacioso que poderia fazê-lo até mudar de partido (indo para o PMDB) e aí ter uma candidatura até mesmo próxima de Lula. Algo improvável, dadas as profundas raízes de Aécio no PSDB.
Como se vê, as disputas partidárias internas visando candidaturas futuras existem. Só que a análise política se concentra em uma futurologia especulativa. Dá pouca importância para o momento e tenta projetar o que irá acontecer, como se a Política fosse algo fácil de se prever. São muitas reviravoltas que podem ocorrer e embolar todo o jogo sucessório. Tudo começa nas eleições municipais, como as que acontecem em outubro, e vão se estender até as próximas gerais (presidente, governador, senador etc.).
No Brasil, os políticos em geral precisam esquecer o palanque e lembrar que devem trabalhar em seus gabinetes, cumprindo os seus mandatos. Já alguns jornalistas deveriam abandonar a “bola de cristal” e passar a enxergar o que seria possível ocorrer neste exato momento. O país precisa de um projeto político amplo e de um jornalismo mais realista.
Se não houvesse a possibilidade de reeleição, talvez seria mais fácil evitar ambições antecipadas de atuais mandatários e até mesmo aspirações exageradas de outros pretendentes ao poder.





