Ligações perigosas
O jornalista Roberto Cabrini (ex-Band e Globo), atualmente na Record, foi preso na noite de terça-feira (15) por porte de cocaína e acusado de tráfico de drogas por se negar a declarar-se usuário. Cabrini alega que foi vítima de uma armação de uma fonte, em represália a uma reportagem investigativa que realiza há cerca de um ano sobre um esquema de narcotráfico.
O caso demonstra alguns dos riscos pelos quais o jornalista pode passar, especialmente se for adepto da modalidade investigativa da profissão. No caso de Cabrini, que há alguns anos se dedica a reportagens policiais, os riscos são ainda maiores, haja vista que lida diretamente com criminosos. O repórter disse que estava no bairro Jardim Ângela, um dos mais violentos da capital paulista, para pegar três DVDs contendo informações sobre a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).
Cabrini ficou conhecido por ter supostamente entrevistado, por telefone celular, em maio de 2006, o líder do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o “Marcola”. A organização já liderou inúmeras rebeliões em presídios e até mesmo uma onda de terrorismo no estado, na mesma época da famosa entrevista. Os DVDs que buscava agora visavam comprovar que a entrevista fora verdadeira, ao contrário de laudo do Instituto de Criminalística, emitido na época.
Analisando as informações apuradas até o momento, chega-se a uma conclusão: há uma linha muito tênue entre o trabalho jornalístico de investigação e o envolvimento com os objetos deste. Tanto a Record como o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo defendem Cabrini e asseguram sua inocência, mas a mulher com quem o repórter estava alega ser amante dele há três anos e que ele consome drogas.
As investigações irão determinar quem está dizendo a verdade. Mas é imperativo que os jornalistas tomem muito cuidado com ligações perigosas. Por mais que o dever de buscar a notícia seja uma prioridade, é necessário medir os riscos de uma empreitada como a de Cabrini. A Polícia deve ser avisada com antecedência, a fim de que um flagrante como o que ocorreu não venha a atrapalhar as investigações. E, é claro, deve-se tomar todas as precauções de segurança. Afinal, existem altos riscos iminentes. Entrar como jornalista e sair como criminoso é uma das piores situações possíveis para um repórter investigativo, caso ele seja vítima de uma armação. A exposição pública decorrente de uma prisão pode manchar irremediavelmente uma reputação profissional que demorou anos para ser construída. Pelo bem do jornalismo, tomara que Cabrini seja inocente e possa ter a chance de mostrar que pode realizar trabalhos de investigação sem se comprometer.
FOTO: O JORNALISTA ROBERTO CABRINI





