Blog do Jonas Gonçalves

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Retratos de uma sociedade

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No mais recente podcast, falei a respeito do valor da teledramaturgia como importante obra cultural brasileira, a exemplo do que ocorre com os filmes e os seriados nos EUA. Lá (como aqui), essas obras tendem a ser alvo de elogios e atraem um número expressivo de aficionados além de, ao mesmo tempo, serem bem recebidas por boa parte da crítica como forma de retratação da sociedade estadunidense.

Obviamente, as novelas no Brasil possuem um sem-número de fãs, mas não recebem, na maioria dos casos, um tratamento diferenciado por parte dos críticos quanto à análise do impacto sociocultural e da qualidade das próprias tramas em si. É mais freqüente a exposição da vida dos atores e atrizes como “celebridades”, em detrimento de aspectos comprovadamente mais importantes.

É claro que, também nos EUA, a vida das “celebridades” também é mostrada de maneira ostensiva, até pelo fato de que lá a comunicação de massa é muito mais desenvolvida e estruturada. Entretanto, o espaço para reflexões críticas é, no mínimo, igual.

Falta essa pluralidade à cobertura do jornalismo cultural brasileiro. Mais vale falar de obras estrangeiras do que discutir a importância da história e da influência da teledramaturgia nacional, que é inclusive um produto de exportação dos mais bem sucedidos. A Globo, que durante anos praticamente monopolizou esse mercado, começa a ter um concorrente, a Record. Com sua “Vidas Opostas”, a emissora de Edir Macedo iniciou um processo de “incômodo” a líder nas medições de audiência pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística). Se consolidando como segunda colocada, desbancando o SBT, a Record se apoiou no mesmo tripé consagrado da Globo para viabilizar sua ascensão (jornalismo, entretenimento – especialmente com as novelas - e esportes).

Tudo o que a novela de Marcílio Moraes propôs foi retratar uma parte considerada não muito palatável para os padrões televisivos, a realidade das favelas. A ação rápida contagiou o público, que passou a olhar as tramas da Globo não mais com o mesmo entusiasmo.

Pode-se explicar a visível queda de audiência das novelas da ainda líder por um simples motivo: falta de qualidade (e de opções no elenco também). Por mais que a Globo tenha os melhores atores, atrizes, autores, diretores e, é claro, estrutura, falta algo que não pode ser comprado: criatividade. Há um desgaste natural depois de quatro décadas de produções. Uma rápida olhada no site Teledramaturgia é suficiente para constatar o número enorme de produções já realizadas, desde as novelas e minisséries de época até as de trama atual, conforme o contexto histórico.

Atualmente, a Globo produz novelas de medíocres para ruins, enquanto com sua minissérie tradicional que é iniciada todo início de ano, geralmente consegue ótimos resultados, pois investe todos os recursos. “JK” (2007), de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, que retratou a vida do ex-presidente Juscelino Kubitschek, foi primorosa, da concepção gráfica até a trilha sonora, passando por elenco e trama. Foi uma demonstração clara de capacidade singular do país em gerar produções televisivas.

As pressões sobre os autores de novelas impedem que esse capricho na produção seja mantido. A pressa em gravar os capítulos, a longa duração (em média, seis meses) e a esmagadora necessidade de conquistar determinado número de pontos no Ibope (abaixo de 40, o que já seria um sonho para outras emissoras, é um desastre para a Globo), colocam a teledramaturgia brasileira em xeque.

Outro fator que agrava a situação é o descontentamento de atores e atrizes veteranos, formados nas melhores escolas de teatro e que possuem currículo invejável de televisão, por perderem cada vez mais espaço para as novas gerações de atores, que foram diretamente colocados na televisão predominantemente por razões estéticas. Não fosse pela geração dos anos 1980, especialmente com o núcleo comediante que despontou em “TV Pirata” (Diogo Vilela, Guilherme Karam, Débora Bloch etc.) e outros como Edson Celulari e Cláudia Raia, haveria um enorme hiato entre profissionais do gabarito de Lima Duarte, Tarcísio Meira, Regina Duarte e Glória Pires e os modelos da atualidade, como Reynaldo Giannechini e Grazielli Massafera.

Mas a Globo encontrou a fórmula para ao menos sanar parte dos problemas. Da mesma forma que se utilizou em larga escala de um elenco com formação enraizada no teatro, busca agora em profissionais que se dedicam mais ao cinema a esperança de tramas mais bem sucedidas. A excelente safra encabeçada por Wagner Moura, Lázaro Ramos, Débora Falabella, Selton Mello e Matheus Nachtergaele vem garantindo os poucos momentos de alívio da emissora carioca. Porém, no caso de Selton, já há alguns anos ele vem se dedicando à Sétima Arte, devido ao excelente momento do cinema nacional, “turbinado” por incentivos governamentais e uma gama de patrocinadores liderada pela Petrobras.

Pela ascensão da Record, e pela história inigualável que possui no setor, a Globo precisa de uma renovação de seus autores. Não uma simples troca de consagrados como Silvio de Abreu e Gilberto Braga por outros de uma nova geração. A experiência deles é importante, ao mesmo tempo em que abrir espaço para outros também. É possível conciliar as duas coisas, desde que se invista em histórias que consigam reunir elementos atrativos (em especial, os que envolvem suspense) para o telespectador, como nos sucessos “A Próxima Vítima” (1995), “Roda de Fogo” (1986) e “Selva de Pedra” (1972), esta última a única a ter tido, no último capítulo, 100% da audiência. 

VÍDEO: CENAS COM ALGUNS DOS MELHORES MOMENTOS DA TELEDRAMATURGIA NACIONAL

Escrito por Jonas Gonçalves

30/04/2008 às 15:51

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