Satiagraha

17 07 2008

Satiagraha, do sânscrito: “Satya” (”Verdade”) e “graha” (”firmeza”), “Firmeza da Verdade”, portanto (podendo também ser “Caminho da Verdade” ou “Busca pela Verdade”). Conceito difundido pelo pacifista indiano Mahatma Gandhi, símbolo da luta pela independência da Índia em relação a Inglaterra.

Não é tão simples encontrar a origem do nome de uma das mais recentes operações da Polícia Federal. Em meio a revelação de tantos crimes financeiros (e que envolvem a política de forma profunda), a denominação acaba ficando relegada a notas divulgadas pelos veículos de comunicação, mais interessados no espetáculo proporcionado pela série de prisões. Os principais holofotes estão direcionados para o banqueiro Daniel Dantas (dono do Grupo Opportunity), o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta (1997-2000).

Esse direcionamento se dá pelo fato de que são os nomes mais conhecidos na sociedade. Parte-se do princípio de que, em uma manchete, é preciso mencionar nomes que chamem a atenção, de preferência os que freqüentemente estão no noticiário. Não é o caso dos três. Salvo algumas reportagens investigativas da revista CartaCapital, Dantas não era mencionado com freqüência afora os períodos em que foi investigado, apesar de ser um importante personagem envolvido em casos como o da espionagem na Brasil Telecom (conhecido como Caso Kroll – ocorrido em 2004, leia mais clicando aqui). Nahas e Pitta também andavam “sumidos” da mídia. Pitta, aliás, depois que foi prefeito, acabou caindo no ostracismo, sendo acusado de crimes de corrupção durante o período em que administrou a maior cidade do País.

A “busca pela verdade” empreendida pela Polícia Federal esbarrou na concessão de pedidos de habeas corpus aos principais acusados por parte do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, duramente criticado por outros integrantes do Judiciário. Abriu-se principalmente uma guerra entre o ocupante do mais alto cargo do Poder Judiciário e o ministro da Justiça, Tarso Genro. Os dois já vinham de uma troca de críticas ao discordarem sobre a atuação da Polícia Federal. Ensaiavam um diálogo, mas a Operação Satiagraha acirrou os ânimos novamente. Agora, tenta-se uma nova conciliação. O objetivo é não deixar que os poderes instituídos tenham uma crise de relacionamento. Falou-se até mesmo em “impeachment” de Gilmar Mendes.

Por outro lado, o juiz Fausto Martin De Sanctis, da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, que decretou a prisão dos investigados na Satiagraha, pelo amplo apoio que vem recebendo, ganha cada vez mais crédito. As investigações ganham respaldo da sociedade, devido ao fato de terem como objeto desvios e remessas para o exterior de grandes somas de dinheiro. Crimes contra o sistema financeiro e que são provenientes de tráfico de influência.

Até mesmo o presidente Lula se envolveu de certa forma com o alarde atual, dizendo que não concorda com o afastamento do delegado da PF que vem cuidando do caso, Protógenes Queiroz, que alega pressões para deixar a incumbência (ele deve ser substituído por Ricardo Saadi). Segundo o jornalista Bob Fernandes, Queiroz teria ouvido de Daniel Dantas, em depoimento: “Vou contar tudo! Detonar!”. Ou seja, iria expor todos os casos de corrupção, envolvendo pagamento de propina nos meios político, jornalístico e até mesmo policial.  A assessoria do Opportunity, em nota, diz que a reportagem, publicada no Terra Magazine (leia aqui) é mentirosa e exigiu retratação. Bob não o fez, apenas relatando o que dizia a nota da assessoria do conglomerado.

Em agosto, Dantas, o assessor dele, Humberto Braz, e o professor universitário Hugo Chicaroni serão ouvidos em juízo. Se tornaram réus pois o juiz De Sanctis aceitou denúncias contra eles. São acusados de tentarem subornar um delegado da PF que investigava supostos crimes cometidos pelo banqueiro. Braz e Chicaroni também entraram no STF com pedido de habeas corpus, mas Gilmar Mendes negou.

O caso possui muitos detalhes e especificidades. Não vai ser encerrado tão cedo. O problema é que o atual “calor do debate” sobre casos de corrupção no Brasil tende a esfriar depois de algum tempo, quando a mídia acabará iniciando a exploração de outro assunto. Somente com algumas exceções, o caso continuará recebendo atenção. Discuti-lo é colocar o tema na ordem do dia, incentivando a reflexão e contribuindo para uma sociedade mais ativa e fiscalizadora dos poderes, instituições e, principalmente, bastidores.

FOTO: O banqueiro Daniel Dantas


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