Torre de Babel
A história bíblica conta que a Torre de Babel era uma obra audaciosa dos seres humanos, que queriam chegar até o Céu. Para impedir o sucesso da empreitada, Deus teria semeado a confusão, determinando que cada um dos construtores falasse uma língua diferente e não pudessem se comunicar. Dessa forma, a obra foi inviabilizada e o projeto fracassou.
Na história oficial, Babel era uma cidade-estado, capital do Império da Babilônia, um importante centro político e econômico que recebia pessoas de diversos lugares e, portanto, possuia diversidade étnica e lingüística.
Religião à parte, o que conta para os que acompanham as relações internacionais é o fato de que a “Torre de Babel” ainda persiste, simbolizada pelas fracassadas negociações da chamada “Rodada Doha”. Porém, o problema não é a diferença entre os idiomas. O entrave se dá pela diferença de interesses.
Doha é a capital do Qatar (pronuncia-se “Catar”), um país do Oriente Médio. Em 2001, na cidade de Doha, representantes dos países que integram a OMC (Organização Mundial do Comércio) iniciaram uma rodada de negociações para definir novas diretrizes para o comércio internacional. A idéia principal é facilitar as transações, desburocratizando e diminuindo tarifas aduaneiras de caráter protecionista, tanto para produtos agrícolas quanto para os derivados dos setores de comércio, serviços e indústria. Estima-se que um acordo global injetaria US$ 100 bilhões na economia mundial.
Mesmo depois de sete anos, as negociações não avançaram. Os países, divididos em grupos (ricos, emergentes e pobres, basicamente), mantêm viva a história da Torre de Babel, não falando a mesma língua. A confusão se dá pelo conflito de interesses. Os países ricos não aceitam diminuir (muito menor cortar) subsídios a produção de seus agricultores, o que dificulta a competitividade dos produtos que vem de países pobres e emergentes. Subsidiada, a produção agrícola dos países ricos fica mais barata para o consumo, deixando os produtos importados mais caros (os valores aumentam também pelas tarifas cobradas pelos governos) e, portanto, menos competitivos.
Estados Unidos e União Européia, pelos mais desenvolvidos, e o grupo denominado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), pelos emergentes, protagonizam os principais conflitos. A Argentina, importante produtora de alimentos, está mais do que nunca inserida nas negociações, devido a crise mundial da produção de alimentos. Com riscos de desabastecimento, os países produtores não exportam, temendo não atender às respectivas demandas internas. Com a diminuição da oferta, os preços para quem importa aumentam.
Falando em Argentina, o governo da presidente Cristina Kirchner sofreu recentemente um revés no Senado, que rejeitou aumento de impostos sobre as exportações agrícolas. O país tenta resolver problemas econômicos como a inflação, que está em alta.
Com o fracasso da Rodada Doha, o Brasil perderá oportunidades de aumento significativo de suas exportações. Um acordo dessa natureza, multilateral, abriria mercados não apenas para o país, mas também para o Mercosul (que une Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). E é justamente a integração ainda não consolidada do bloco que impede o Brasil de buscar a outra saída, acordos bilaterais (apenas entre um país e outro), como fazem México e Chile com os EUA.
Há alguns anos, falava-se em uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que reuniria todos os países do continente (excetuando-se Cuba, pelo embargo econômico imposto pelos EUA). A idéia não vingou devido às enormes diferenças entre os países. Se mesmo a União Européia, considerada um modelo de integração e com uma história de mais de 50 anos, ainda não se acertou (é só lembrar que a moeda comum, o euro, não é adotada por todos os países-membros, como a Inglaterra), acordos mais recentes, como o Mercosul (criado em 1995), encontram-se com problemas ainda maiores para resolver. Quando as integrações regionais estiverem consolidadas, talvez um acordo multilateral que envolva o planeta fique mais próximo. Enquanto os interesses particulares estiverem acima dos coletivos, nenhuma Rodada, seja de Doha ou de qualquer outro lugar, conseguirá ser bem sucedida.
FOTO: A Torre de Babel, pintura de Pieter Brueghel





