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Segundo turno
Nas 30 cidades brasileiras em que foi necessário haver segundo turno, poucos fatos realmente chegaram a surpreender. A grande emoção ficou por conta do Rio de Janeiro, que teve uma disputa acirrada entre Eduardo Paes (PMDB) e Fernando Gabeira (PV). Paes foi o vencedor, mas por uma margem muito pequena (50,83% ante 49,17%). No início da apuração, Gabeira chegou a aparecer na frente, mas na maior parte, o candidato do PMDB se manteve na dianteira, ainda que sem abrir grande vantagem. Prevaleceu a força do partido no Rio, que já tem o governador, Sérgio Cabral. Resta ao deputado federal do Partido Verde a glória de ter iniciado a disputa como “zebra” e ter acabado como um político que sai fortalecido da disputa e credenciado para um próximo pleito.
Em São Paulo, Gilberto Kassab confirmou a enorme dianteira apontada pelas pesquisas de opinião, vencendo Marta Suplicy (PT) com facilidade (60,72% a 39,28%). A derrota do PT na capital paulista sinaliza que o governador José Serra (PSDB) está mais forte do que nunca em seu principal reduto. Porém, ainda é muito prematuro afirmar que o tucano será eleito presidente em 2010, como alguns jornalistas e outros especialistas da área da Política se apressam em garantir. Obviamente, Serra é, na atual conjuntura, o candidato mais forte, ainda mais levando-se em consideração o panorama depois das eleições municipais. Mas, ainda faltam dois anos. Vale lembrar que Serra terá que vencer a disputa interna em seu próprio partido pela candidatura, salvo uma grande articulação que envolva o seu provável adversário, o governador Aécio Neves, de Minas Gerais.
Aécio, assim como Serra, também elegeu o seu candidato nestas eleições. Na disputa pela prefeitura de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB) derrotou Leonardo Quintão (PMDB) por 59,12% a 40,88%. Do duelo mineiro, duas curiosidades: a primeira é que Lacerda foi apoiado tanto pelo PT do atual prefeito Fernando Pimentel quanto pelo PSDB de Aécio, em uma composição polêmica, inusitada e ousada, que poderá sinalizar novos rumos para a política brasileira; a segunda é o fato de que o candidato do PMDB venceu o primeiro turno, vencendo o favorito Lacerda, que só conseguiu confirmar tal condição depois de virar o jogo no segundo turno.
É praticamente impossível que PT e PSDB se unam em 2010. Os dois são ferrenhos adversários no plano nacional, possuem divergências históricas e mantêm uma disputa pelo poder desde 1994, quando Fernando Henrique Cardoso se elegeu presidente pela primeira vez. Suas duas vitórias sobre Luiz Inácio Lula da Silva fizeram os dois partidos se colocarem em campos opostos: o PSDB foi tachado de “direita” ao se aliar com o então PFL (atual DEM), enquanto o PT liderou a “esquerda” (algo que hoje é impensável, visto que entre os partidos de esquerda como PSOL e PSTU, o PT foi para a “direita” depois que assumiu o poder). As disputas continuaram em 2002 e 2006, com as duas vitórias de Lula sobre Serra e Geraldo Alckmin, respectivamente.
Pelo campo dito “de direita”, a tendência é que o PSDB e o DEM se unam de forma definitiva a partir da eleição de Kassab em São Paulo. O PT, que é a atual situação no poder, sofre com o fato de não ter uma candidatura com chances reais (ao menos até agora). Se for seguir uma lógica pragmática, dará lugar na cabeça de chapa a Ciro Gomes (PSB), que é o único com chances reais de enfrentar Serra. Seja qual for a disputa, o fiel da balança será o PMDB. O partido, que é o maior do Brasil em número de militantes e de prefeitos eleitos no País, tem força política também nas duas casas do Poder Legislativo nacional (ocupa a presidência do Senado e deverá conquistar a da Câmara). Se optar por Serra em 2010 (como o diretório paulista quer, pois já apoiou Kassab), tornará a oposição ainda mais forte. Agora, se pender para a situação (seguindo a praxe de seu fisiologismo desde a redemocratização), equilibra as forças e torna o jogo sucessório acirrado.
Ainda há muito mais para ser analisado nos próximos dois anos. O mais importante é ter a consciência de que a política não pára.
Estrutura do site
Para esclarecer a nova estrutura do site, resolvi escrever um texto sucinto, que visa destacar os temas que serão sempre abordados de agora em diante. A lógica é utilizada para definir as categorias dos links disponibilizados no menu à direita:
1) Política e Poderes: como já foi explicado, o site agora tem como foco o jornalismo político, abordando todas as esferas (municipal, estadual, federal e internacional) e os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário). Progressivamente, o jornalismo político já vem se tornando cada vez mais predominante no blog por meio de um processo planejado, intensificado pelas recentes eleições municipais. Como o tema “Política” interfere nos mais diferentes âmbitos, eventualmente será possível abordar assuntos relacionados a outros temas, como Economia, Esporte e Cultura.
2) Cidadania: ao mesmo tempo em que o blog é utilizado para análises da Política, também é dado um espaço para que, por meio de comentários, e-mails e quaisquer outros meios de interação com este jornalista, seja possível às pessoas que visitam o site o exercício da Cidadania. Links estão sendo disponibilizados gradativamente, com o intuito principal de despertar na sociedade a consciência de que é necessário fiscalizar o poder público, tanto no âmbito executivo quanto no legislativo, em todas as esferas.
3) Jornalismo: a atividade jornalística e os fatos relevantes relacionados também poderão ser abordados aqui, já que o contexto atual da profissão é dominado por intensos debates sobre temas controversos como regulamentação, obrigatoriedade do diploma, necessidade de uma nova Lei de Imprensa, entre outras questões de suma importância para o futuro do Jornalismo e como este se insere na sociedade.
É sempre importante reiterar que a participação do público é fundamental para o sucesso deste projeto, que sempre está em constante processo de aperfeiçoamento.
Obama vencerá… e depois?
Neste momento, os americanos pensam menos na eleição presidencial e mais na crise econômica que assola o país, oriunda da irresponsabilidade especulativa no setor imobiliário. Quase US$ 1 trilhão deverá ser gasto pelo governo para tentar, ao menos, evitar um desastre ainda maior.
Mas, como a disputa entre o democrata Barack Obama e o republicano John McCain está na reta final, é impossível simplesmente esquecê-la. Até mesmo porque o futuro dos EUA depende, em grande parte, da escolha que será feita.
Enquanto McCain tenta se diferenciar de seu colega George W. Bush, que irá encerrar seu mandato de forma melancólica e impopular no próximo mês de janeiro, Obama tem um respaldo cada vez maior, potencializado pela insatisfação crescente dos americanos com relação a economia.
Pela magnitude da crise, ganhar a eleição tornou-se uma tarefa simples. Os institutos de pesquisa já o apontam com uma vantagem de até 11 pontos (52% a 41% na pesquisa Gallup). Essa tende a ser a vitória mais fácil de um candidato norte-americano a presidente desde a reeleição do democrata Bill Clinton, em 1996, quando o então ocupante do cargo não teve problemas para derrotar o republicano Bob Dole.
Após um ciclo de dois mandatos (oito anos), os americanos raramente deixam de renovar. Para se ter uma idéia, a exceção mais “recente” ocorreu nas eleições de 1988, quando após dois mandatos do republicano Ronald Reagan, George Bush (pai) estendeu o domínio do partido por mais quatro anos, derrotando na ocasião o democrata Mike Dukakis.
Essa alternância de poder entre os dois grandes partidos é absolutamente natural. Por mais que se diferencie um do outro pelas características conservadoras dos republicanos e liberais dos democratas, há pouca diferença no exercício do poder em relação ao que se exige de um presidente dos EUA: manter o país no topo global.
O país já sobreviveu a crises como a de 1929 (“crack” da bolsa de New York) e a de 2000 (estouro da “bolha” especulativa da Internet ou “crack da Nasdaq”). Nos dois casos, foi elaborado e executado um plano de recuperação, que reestruturou a economia.
Com a iminente vitória de Obama, fica a pergunta: será que, desta vez, existe um plano, neste caso na mente do senador por Illinois? Aparentemente, sim. Porém, ainda na condição de candidato, o máximo que pode fazer é debater o assunto com McCain, visando a concorrência pelo cargo. Não é uma situação fácil. Contudo, será ainda pior quando, se realmente for eleito, tiver que assumir as rédeas. A emergência é inimiga da racionalidade. Se não houver equilíbrio e responsabilidade, as conseqüências continuarão se refletindo no mercado financeiro, que sangra em profusão. Resta esperar que haja um estancamento.
Mas, perguntariam alguns… e o Iraque? Vale lembrar que, evitando as mais recentes guerras, os EUA estariam em uma situação menos dramática, pois a ofensiva contra o terrorismo no Afeganistão e a intervenção no Iraque só causaram destruição e mortes. Os EUA devem retirar suas tropas do Oriente Médio e se concentrar em resolver os próprios problemas. Ser “polícia do mundo” só gera gastos infrutíferos, além da rejeição interna e externa.
No auge da crise, a velha máxima do marqueteiro político de Bill Clinton em 1992, James Carville, volta com toda a força: “É a economia, estúpido!”. E Obama está se aproveitando muito bem do retorno desse contexto. A História, mais uma vez, prova que é pendular: determinadas situações podem se repetir em épocas distintas.
Araraquara, 191
Gostaria de registrar aqui os meus parabéns a cidade de Araraquara, que completa hoje 191 anos. Em meio ao processo eleitoral, as comemorações tiram, ainda que somente por um dia, o foco sobre o pleito. A briga certamente ficará cada vez mais acirrada. Porém, o que se espera é que o município seja colocado acima das disputas políticas, a fim de que os eleitos em 5 de outubro possam exercer seus mandatos da melhor forma possível.
Torre de Babel
A história bíblica conta que a Torre de Babel era uma obra audaciosa dos seres humanos, que queriam chegar até o Céu. Para impedir o sucesso da empreitada, Deus teria semeado a confusão, determinando que cada um dos construtores falasse uma língua diferente e não pudessem se comunicar. Dessa forma, a obra foi inviabilizada e o projeto fracassou.
Na história oficial, Babel era uma cidade-estado, capital do Império da Babilônia, um importante centro político e econômico que recebia pessoas de diversos lugares e, portanto, possuia diversidade étnica e lingüística.
Religião à parte, o que conta para os que acompanham as relações internacionais é o fato de que a “Torre de Babel” ainda persiste, simbolizada pelas fracassadas negociações da chamada “Rodada Doha”. Porém, o problema não é a diferença entre os idiomas. O entrave se dá pela diferença de interesses.
Doha é a capital do Qatar (pronuncia-se “Catar”), um país do Oriente Médio. Em 2001, na cidade de Doha, representantes dos países que integram a OMC (Organização Mundial do Comércio) iniciaram uma rodada de negociações para definir novas diretrizes para o comércio internacional. A idéia principal é facilitar as transações, desburocratizando e diminuindo tarifas aduaneiras de caráter protecionista, tanto para produtos agrícolas quanto para os derivados dos setores de comércio, serviços e indústria. Estima-se que um acordo global injetaria US$ 100 bilhões na economia mundial.
Mesmo depois de sete anos, as negociações não avançaram. Os países, divididos em grupos (ricos, emergentes e pobres, basicamente), mantêm viva a história da Torre de Babel, não falando a mesma língua. A confusão se dá pelo conflito de interesses. Os países ricos não aceitam diminuir (muito menor cortar) subsídios a produção de seus agricultores, o que dificulta a competitividade dos produtos que vem de países pobres e emergentes. Subsidiada, a produção agrícola dos países ricos fica mais barata para o consumo, deixando os produtos importados mais caros (os valores aumentam também pelas tarifas cobradas pelos governos) e, portanto, menos competitivos.
Estados Unidos e União Européia, pelos mais desenvolvidos, e o grupo denominado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), pelos emergentes, protagonizam os principais conflitos. A Argentina, importante produtora de alimentos, está mais do que nunca inserida nas negociações, devido a crise mundial da produção de alimentos. Com riscos de desabastecimento, os países produtores não exportam, temendo não atender às respectivas demandas internas. Com a diminuição da oferta, os preços para quem importa aumentam.
Falando em Argentina, o governo da presidente Cristina Kirchner sofreu recentemente um revés no Senado, que rejeitou aumento de impostos sobre as exportações agrícolas. O país tenta resolver problemas econômicos como a inflação, que está em alta.
Com o fracasso da Rodada Doha, o Brasil perderá oportunidades de aumento significativo de suas exportações. Um acordo dessa natureza, multilateral, abriria mercados não apenas para o país, mas também para o Mercosul (que une Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). E é justamente a integração ainda não consolidada do bloco que impede o Brasil de buscar a outra saída, acordos bilaterais (apenas entre um país e outro), como fazem México e Chile com os EUA.
Há alguns anos, falava-se em uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que reuniria todos os países do continente (excetuando-se Cuba, pelo embargo econômico imposto pelos EUA). A idéia não vingou devido às enormes diferenças entre os países. Se mesmo a União Européia, considerada um modelo de integração e com uma história de mais de 50 anos, ainda não se acertou (é só lembrar que a moeda comum, o euro, não é adotada por todos os países-membros, como a Inglaterra), acordos mais recentes, como o Mercosul (criado em 1995), encontram-se com problemas ainda maiores para resolver. Quando as integrações regionais estiverem consolidadas, talvez um acordo multilateral que envolva o planeta fique mais próximo. Enquanto os interesses particulares estiverem acima dos coletivos, nenhuma Rodada, seja de Doha ou de qualquer outro lugar, conseguirá ser bem sucedida.
FOTO: A Torre de Babel, pintura de Pieter Brueghel







