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Podcast Nº 8
Depois de algumas mudanças, o podcast retorna. Não apenas para comentar o novo topo do site, incorporando o momento marcado pelos Projetos Jornalísticos, mas também para falar de um assunto que vem chamando a atenção: o Cinema.
O programa tem alguns “pitacos” sobre Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, além de falar sobre a Palma de Ouro em Cannes vencida por Sandra Corveloni. Ouçam abaixo o podcast ou baixem em MP3. Curtam a nova trilha sonora de abertura e encerramento, além de uma conhecida trilha incidental no meio da gravação.
Francis Albert Sinatra

Há dez anos, ”A Voz” silenciou. Morria Frank Sinatra, ou Francis Albert Sinatra, o filho mais ilustre de Hoboken, New Jersey, nos EUA. Com características marcantes (como os olhos azuis e o dom simbolizado pela alcunha eterna “The Voice”), manteve com êxito sua longa carreira, tanto no cinema, como ator, quanto na música, como intérprete de grandes sucessos, a exemplo da homenagem à cidade que amava, “New York, New York”, além de “I’ve Got You Under My Skin”, “Strangers In The Night” e ”My Way”. Também cantou “Yesterday”, “Moon River” e até a brasileiríssima “Garota de Ipanema” ao lado de um de seus maiores ídolos, Tom Jobim.
Os dois, vale lembrar, gravaram em 1967 o disco “Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim”, em um marcante dueto. Outra parceria foi feita em 1960 por meio de um especial de TV, com ninguém menos do que Elvis Presley. Sinatra já era mais do que consagrado, enquanto Elvis era o jovem sucesso da época. Os dois cantaram um sucesso do Rei do Rock, ”Love Me Tender”, cada qual a seu estilo.
Sinatra foi sinônimo de sucesso não somente por seu inegável talento como cantor, mas também por que criou uma figura marcante perante a sociedade, a imprensa e os fãs. O jornalista norte-americano Gay Talese escreveu, em 1965, um perfil sobre o cantor para a revista Esquire intitulado “Frank Sinatra está resfriado”. O detalhe é que, para isso, não precisou entrevistá-lo nem uma única vez. Conversou com praticamente todos que se relacionavam com ele. Produziu uma reportagem que depois se tornou um dos livros-referência da prática jornalística. Segue um dos trechos:
Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa parte da noite calado.
E o motivo para o silêncio era aparentemente prosaico, ainda mais em se tratando de um mito como Sinatra: um mero resfriado. Mas é só imaginar o quanto um resfriado pode prejudicar a voz para se dar conta do quanto Sinatra poderia estar triste.
A liberdade do “new journalism” e a confiança da Esquire no talento de Talese permitiram ao jornalista escrever como se estivesse narrando a história de um romance. Porém, tratava-se de um exercício jornalístico elementar: captar traços marcantes daquele que seria objeto do perfil.
Outro momento marcante protagonizado por Sinatra foi a sua apresentação para 140 mil pessoas no estádio do Maracanã, em 1980, um recorde de público superado somente 10 anos depois por Paul McCartney, que levou 184 mil ao mesmo estádio para um dos shows de sua turnê (número que persiste até hoje no Guinness Book). Mesmo não estando mais no “Livro dos Recordes”, o cantor americano, com direito a microfone dourado e cachê de US$ 850 mil, encantou a platéia aos 64 anos, acumulando já naquele momento 40 de carreira e inúmeros sucessos.
Sinatra cantou pela última vez em seu aniversário de 80 anos, em 1995. Morreria aos 82 anos, em 1998, pois só completaria 83 no final daquele ano. Os poucos detratores de seus méritos dizem que ele foi beneficiado por amizades com grandes mafiosos nos EUA, que o teriam financiado e permitido que ele chegasse ao estrelato. Nada foi comprovado até hoje. O que persiste são as estrelas na Calçada da Fama de Hollywood (duas, como cantor e também astro da TV americana), seus discos de sucesso, os incontáveis fãs e a voz… “The Voice”.
CRÉDITO DA FOTO: Herman Leonard
VÍDEO: Frank Sinatra cantando possivelmente o seu maior “hit”, a homenagem a Big Apple, “New York, New York”
Modelo de anti-herói

As histórias em quadrinhos de heróis podem ser divididas entre aquelas que mostram seres exemplares lutando por ideais de justiça e paz (ex.: Super-Homem) e outros que são movidos por sentimentos intrínsecos ao ser humano (ex.: Batman).
Longe de impor rótulos, a idéia é diferenciar o que move cada um deles. Mesmo entre heróis de uma mesma “categoria”, existem claras diferenças. Na época atual, o único fator que os une em uma mesma análise é a de que praticamente todos ganharam uma versão cinematográfica, com todos os recursos possíveis para o orçamento de cada produção.
Hollywood e as duas grandes editoras de HQ dos EUA, Marvel e DC Comics, descobriram o filão. A trilogia do “Homem-Aranha”, interpretado por Tobey Maguire, pode ser considerada o símbolo inicial desse novo momento. Na esteira do sucesso do aracnídeo, vieram Hulk, Batman e Super-Homem, entre os mais conhecidos.
Entretanto, até mesmo outros que não desfrutam de tanta popularidade, como o Motoqueiro Fantasma, ganharam versões. O processo continua e, no momento, tem no Homem de Ferro o seu ápice, com recordes de bilheteria.
Robert Downey Jr., conhecido principalmente por seu papel em “Chaplin” e por um passado turbulento com drogas, interpreta Tony Stark, o protagonista, que constrói uma armadura com tecnologia avançada para combater a proliferação de armas de destruição em massa. Armas estas que, ironicamente, são fabricadas em escala industrial por sua empresa, a Stark Industries.
Excêntrico, mulherengo, beberrão e farrista, Stark também é conhecido pela genialidade no campo da engenharia eletrônica e pela condução de seus negócios, que o transformaram em um dos homens mais ricos do mundo. A história do filme mostra as origens do Homem de Ferro, que não se trata de um personagem com ideais.
Essencialmente individualista, o Homem de Ferro quer evitar as conseqüências do próprio mal que criou. É uma pessoa em conflito, mas que por sua competência, se transforma em um ser acima da média, chamando a atenção da mídia e da sociedade. Stark não consegue criar um código de conduta para si mesmo, dada a sua instabilidade. Prefere ser sincero, ao revelar para quem quiser ver a sua identidade por trás da armadura cheia de apetrechos, que lhe permite voar a grandes distâncias e causar sérios danos a quem é alvo de seus disparos.
Destruir as armas que fabricou e desativar sua fábrica são medidas drásticas, conseqüência das péssimas experiências que vivencia na mão de terroristas. De um gênio milionário inconseqüente, passa a ser alguém capaz de grandes proezas, mesmo que não tenha um espírito nobre nem queira ser portador de virtudes.
Trata-se de um personagem complexo, modelo de anti-herói em uma sociedade competitiva, individualista e ultra-tecnológica. O longa-metragem consegue reunir todos esses elementos com efeitos muito bem elaborados. Vale o ingresso.
Confira abaixo o trailer:
FOTO: Robert Downey Jr. interpreta o Homem de Ferro, um dos personagens mais interessantes da Marvel Comics
Pensamento de Chaplin
O pensamento de Charles Spencer Chaplin, o mais completo artista da história do cinema mundial, é uma das novidades que chegam para enriquecer este site. A lição de vida deixada é um dos grandes legados, além de sua inegável contribuição cinematográfica.
Retratos de uma sociedade
No mais recente podcast, falei a respeito do valor da teledramaturgia como importante obra cultural brasileira, a exemplo do que ocorre com os filmes e os seriados nos EUA. Lá (como aqui), essas obras tendem a ser alvo de elogios e atraem um número expressivo de aficionados além de, ao mesmo tempo, serem bem recebidas por boa parte da crítica como forma de retratação da sociedade estadunidense.
Obviamente, as novelas no Brasil possuem um sem-número de fãs, mas não recebem, na maioria dos casos, um tratamento diferenciado por parte dos críticos quanto à análise do impacto sociocultural e da qualidade das próprias tramas em si. É mais freqüente a exposição da vida dos atores e atrizes como “celebridades”, em detrimento de aspectos comprovadamente mais importantes.
É claro que, também nos EUA, a vida das “celebridades” também é mostrada de maneira ostensiva, até pelo fato de que lá a comunicação de massa é muito mais desenvolvida e estruturada. Entretanto, o espaço para reflexões críticas é, no mínimo, igual.
Falta essa pluralidade à cobertura do jornalismo cultural brasileiro. Mais vale falar de obras estrangeiras do que discutir a importância da história e da influência da teledramaturgia nacional, que é inclusive um produto de exportação dos mais bem sucedidos. A Globo, que durante anos praticamente monopolizou esse mercado, começa a ter um concorrente, a Record. Com sua “Vidas Opostas”, a emissora de Edir Macedo iniciou um processo de “incômodo” a líder nas medições de audiência pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística). Se consolidando como segunda colocada, desbancando o SBT, a Record se apoiou no mesmo tripé consagrado da Globo para viabilizar sua ascensão (jornalismo, entretenimento – especialmente com as novelas - e esportes).
Tudo o que a novela de Marcílio Moraes propôs foi retratar uma parte considerada não muito palatável para os padrões televisivos, a realidade das favelas. A ação rápida contagiou o público, que passou a olhar as tramas da Globo não mais com o mesmo entusiasmo.
Pode-se explicar a visível queda de audiência das novelas da ainda líder por um simples motivo: falta de qualidade (e de opções no elenco também). Por mais que a Globo tenha os melhores atores, atrizes, autores, diretores e, é claro, estrutura, falta algo que não pode ser comprado: criatividade. Há um desgaste natural depois de quatro décadas de produções. Uma rápida olhada no site Teledramaturgia é suficiente para constatar o número enorme de produções já realizadas, desde as novelas e minisséries de época até as de trama atual, conforme o contexto histórico.
Atualmente, a Globo produz novelas de medíocres para ruins, enquanto com sua minissérie tradicional que é iniciada todo início de ano, geralmente consegue ótimos resultados, pois investe todos os recursos. “JK” (2007), de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, que retratou a vida do ex-presidente Juscelino Kubitschek, foi primorosa, da concepção gráfica até a trilha sonora, passando por elenco e trama. Foi uma demonstração clara de capacidade singular do país em gerar produções televisivas.
As pressões sobre os autores de novelas impedem que esse capricho na produção seja mantido. A pressa em gravar os capítulos, a longa duração (em média, seis meses) e a esmagadora necessidade de conquistar determinado número de pontos no Ibope (abaixo de 40, o que já seria um sonho para outras emissoras, é um desastre para a Globo), colocam a teledramaturgia brasileira em xeque.
Outro fator que agrava a situação é o descontentamento de atores e atrizes veteranos, formados nas melhores escolas de teatro e que possuem currículo invejável de televisão, por perderem cada vez mais espaço para as novas gerações de atores, que foram diretamente colocados na televisão predominantemente por razões estéticas. Não fosse pela geração dos anos 1980, especialmente com o núcleo comediante que despontou em “TV Pirata” (Diogo Vilela, Guilherme Karam, Débora Bloch etc.) e outros como Edson Celulari e Cláudia Raia, haveria um enorme hiato entre profissionais do gabarito de Lima Duarte, Tarcísio Meira, Regina Duarte e Glória Pires e os modelos da atualidade, como Reynaldo Giannechini e Grazielli Massafera.
Mas a Globo encontrou a fórmula para ao menos sanar parte dos problemas. Da mesma forma que se utilizou em larga escala de um elenco com formação enraizada no teatro, busca agora em profissionais que se dedicam mais ao cinema a esperança de tramas mais bem sucedidas. A excelente safra encabeçada por Wagner Moura, Lázaro Ramos, Débora Falabella, Selton Mello e Matheus Nachtergaele vem garantindo os poucos momentos de alívio da emissora carioca. Porém, no caso de Selton, já há alguns anos ele vem se dedicando à Sétima Arte, devido ao excelente momento do cinema nacional, “turbinado” por incentivos governamentais e uma gama de patrocinadores liderada pela Petrobras.
Pela ascensão da Record, e pela história inigualável que possui no setor, a Globo precisa de uma renovação de seus autores. Não uma simples troca de consagrados como Silvio de Abreu e Gilberto Braga por outros de uma nova geração. A experiência deles é importante, ao mesmo tempo em que abrir espaço para outros também. É possível conciliar as duas coisas, desde que se invista em histórias que consigam reunir elementos atrativos (em especial, os que envolvem suspense) para o telespectador, como nos sucessos “A Próxima Vítima” (1995), “Roda de Fogo” (1986) e “Selva de Pedra” (1972), esta última a única a ter tido, no último capítulo, 100% da audiência.
VÍDEO: CENAS COM ALGUNS DOS MELHORES MOMENTOS DA TELEDRAMATURGIA NACIONAL





