Posts Tagueados ‘Economia’
Artigo de estréia
O primeiro texto da recém-criada seção “Artigos” fala sobre o atual projeto de Reforma Tributária, em tramitação no Congresso Nacional. O autor é José Roberto Barreto Trindade, Secretário de Estado da Fazenda do Pará e presidente do Fórum Fiscal dos Estados Brasileiros.
Pacotes salvadores
A China anunciou um pacote de US$ 586 bilhões para minimizar os efeitos da crise, o que deixa os mercados mais tranquilos. Há pouco tempo, tanto os EUA quanto a União Européia também divulgaram uma série de medidas para garantir a estabilidade do sistema financeiro.
Em termos gerais, os governos realizam uma grande intervenção, especialmente em bancos e seguradoras, os mais atingidos pelas perdas. Os que concederam crédito mesmo àqueles que apresentavam uma alta taxa de inadimplência, um investimento de altíssimo risco, não obtiveram o retorno esperado e amargaram prejuízos de milhões de dólares. Consequentemente, o mercado imobiliário (dependente contumaz da concessão de crédito) desabou nos EUA, já que a compra e venda de imóveis ficou paralisada. A reação em cadeia foi tão forte que fez muitas empresas apresentarem balanços negativos, o que levou a desvalorizações nas bolsas de valores. E, se os EUA vão mal, o planeta sente o impacto. As exportações para lá diminuem e, temendo uma recessão geral, as empresas de outros países cortam investimentos. Dessa forma, não há crescimento e as incertezas tomam conta.
A fim de reativar suas economias, os países chegam ao ponto de comprar ações de empresas em dificuldades, uma espécie de “estatização” da iniciativa privada. É uma “injeção de ânimo” para que o consumo volte e toda a cadeia da economia funcione novamente. Porém, como disse o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, “não será fácil sairmos do buraco”.
Talvez mais do que em qualquer outra época, nunca o mundo controlado pelo mercado esteve tanto nas mãos dos governos.
Breves considerações
*Em visita ao 25º Salão do Automóvel de São Paulo, nesta quarta-feira (29), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não é necessário “entrar em uma crise psicológica” devido a atual crise econômica internacional.
>> É fato consumado que a crise afeta o mundo todo. Obviamente, o Brasil não é o epicentro do problema (são os EUA). Entretanto, o sinal de alerta é muito claro: quem gasta demais e depois não tem como pagar a conta, entra em crise profunda. Em geral, o brasileiro se deixa levar facilmente por uma onda de consumismo, como aconteceu diversas vezes. A título de exemplo, a euforia do Plano Cruzado, em 1986. Deu no que deu: hiperinflação e recessão. A economia precisa do consumo para se manter. Mas tudo que é demais faz mal. Os estadunidenses consumiram e compraram muito. Agora, pagam o preço. A dica para o mundo é: consumir sim, mas com responsabilidade.
*A Câmara dos Deputados aprovou o texto-base que cria o Fundo Soberano Brasileiro (FSB), que tem por objetivo auxiliar empresas em períodos difíceis da economia.
Foram cerca de 10 horas de votação. Os deputados de oposição querem fazer alterações, o que mantém o projeto em tramitação na Casa. Somente depois que todos os destaques forem aprovados será possível encaminhar o projeto para a avaliação do Senado. O FSB contaria com 0,5% do PIB (R$ 14,2 bilhões). O DEM e o PSDB criticam a iniciativa, alegando que o Brasil não teria condições de sustentar um fundo dessa natureza. De fato, seria muito arriscado manter uma poupança para emprestar dinheiro a empresas com crise de liquidez, que não conseguem obter mais crédito a fim de fazer exportações, por exemplo, no contexto atual de crise. O governo alega que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) poderia realizar parte dos empréstimos. Nesse caso, o FSB seria algo redundante, pois o mais lógico seria repassar os recursos diretamente ao banco estatal, que tradicionalmente realiza empréstimos a empresas.
*Em um comercial de meia hora que já é considerado o mais caro da história dos EUA (US$ 6 milhões), o candidato democrata a presidência, Barack Obama, declarou que irá promover “a volta do sonho americano”.
>> A retórica do “american dream” é tudo o que os estadunidenses querem ouvir neste momento de turbulência e incertezas. Até algum tempo atrás, eles compravam casas com crédito muito fácil, iam às compras com voracidade e passavam o cartão de crédito sem se preocuparem com o amanhã. Quando este chegou, cobrou as despesas. Sem fundos, a população da maior potência global se vê em uma encruzilhada, ainda mais em um ano eleitoral. Obama aparece com a mensagem da esperança, enquanto McCain prega que teria mais experiência para lidar com a crise e devolver aos EUA o rumo perdido com o desastrado governo de seu companheiro republicano, George W. Bush. Todas as pesquisas indicam que Obama sairá vencedor do pleito de 4 de novembro. Mas McCain não entrega os pontos e ataca o oponente com virulência, acusando-o de quebrar a promessa de que só utilizaria o financiamento público para sua campanha.
Obama vencerá… e depois?
Neste momento, os americanos pensam menos na eleição presidencial e mais na crise econômica que assola o país, oriunda da irresponsabilidade especulativa no setor imobiliário. Quase US$ 1 trilhão deverá ser gasto pelo governo para tentar, ao menos, evitar um desastre ainda maior.
Mas, como a disputa entre o democrata Barack Obama e o republicano John McCain está na reta final, é impossível simplesmente esquecê-la. Até mesmo porque o futuro dos EUA depende, em grande parte, da escolha que será feita.
Enquanto McCain tenta se diferenciar de seu colega George W. Bush, que irá encerrar seu mandato de forma melancólica e impopular no próximo mês de janeiro, Obama tem um respaldo cada vez maior, potencializado pela insatisfação crescente dos americanos com relação a economia.
Pela magnitude da crise, ganhar a eleição tornou-se uma tarefa simples. Os institutos de pesquisa já o apontam com uma vantagem de até 11 pontos (52% a 41% na pesquisa Gallup). Essa tende a ser a vitória mais fácil de um candidato norte-americano a presidente desde a reeleição do democrata Bill Clinton, em 1996, quando o então ocupante do cargo não teve problemas para derrotar o republicano Bob Dole.
Após um ciclo de dois mandatos (oito anos), os americanos raramente deixam de renovar. Para se ter uma idéia, a exceção mais “recente” ocorreu nas eleições de 1988, quando após dois mandatos do republicano Ronald Reagan, George Bush (pai) estendeu o domínio do partido por mais quatro anos, derrotando na ocasião o democrata Mike Dukakis.
Essa alternância de poder entre os dois grandes partidos é absolutamente natural. Por mais que se diferencie um do outro pelas características conservadoras dos republicanos e liberais dos democratas, há pouca diferença no exercício do poder em relação ao que se exige de um presidente dos EUA: manter o país no topo global.
O país já sobreviveu a crises como a de 1929 (“crack” da bolsa de New York) e a de 2000 (estouro da “bolha” especulativa da Internet ou “crack da Nasdaq”). Nos dois casos, foi elaborado e executado um plano de recuperação, que reestruturou a economia.
Com a iminente vitória de Obama, fica a pergunta: será que, desta vez, existe um plano, neste caso na mente do senador por Illinois? Aparentemente, sim. Porém, ainda na condição de candidato, o máximo que pode fazer é debater o assunto com McCain, visando a concorrência pelo cargo. Não é uma situação fácil. Contudo, será ainda pior quando, se realmente for eleito, tiver que assumir as rédeas. A emergência é inimiga da racionalidade. Se não houver equilíbrio e responsabilidade, as conseqüências continuarão se refletindo no mercado financeiro, que sangra em profusão. Resta esperar que haja um estancamento.
Mas, perguntariam alguns… e o Iraque? Vale lembrar que, evitando as mais recentes guerras, os EUA estariam em uma situação menos dramática, pois a ofensiva contra o terrorismo no Afeganistão e a intervenção no Iraque só causaram destruição e mortes. Os EUA devem retirar suas tropas do Oriente Médio e se concentrar em resolver os próprios problemas. Ser “polícia do mundo” só gera gastos infrutíferos, além da rejeição interna e externa.
No auge da crise, a velha máxima do marqueteiro político de Bill Clinton em 1992, James Carville, volta com toda a força: “É a economia, estúpido!”. E Obama está se aproveitando muito bem do retorno desse contexto. A História, mais uma vez, prova que é pendular: determinadas situações podem se repetir em épocas distintas.
Torre de Babel
A história bíblica conta que a Torre de Babel era uma obra audaciosa dos seres humanos, que queriam chegar até o Céu. Para impedir o sucesso da empreitada, Deus teria semeado a confusão, determinando que cada um dos construtores falasse uma língua diferente e não pudessem se comunicar. Dessa forma, a obra foi inviabilizada e o projeto fracassou.
Na história oficial, Babel era uma cidade-estado, capital do Império da Babilônia, um importante centro político e econômico que recebia pessoas de diversos lugares e, portanto, possuia diversidade étnica e lingüística.
Religião à parte, o que conta para os que acompanham as relações internacionais é o fato de que a “Torre de Babel” ainda persiste, simbolizada pelas fracassadas negociações da chamada “Rodada Doha”. Porém, o problema não é a diferença entre os idiomas. O entrave se dá pela diferença de interesses.
Doha é a capital do Qatar (pronuncia-se “Catar”), um país do Oriente Médio. Em 2001, na cidade de Doha, representantes dos países que integram a OMC (Organização Mundial do Comércio) iniciaram uma rodada de negociações para definir novas diretrizes para o comércio internacional. A idéia principal é facilitar as transações, desburocratizando e diminuindo tarifas aduaneiras de caráter protecionista, tanto para produtos agrícolas quanto para os derivados dos setores de comércio, serviços e indústria. Estima-se que um acordo global injetaria US$ 100 bilhões na economia mundial.
Mesmo depois de sete anos, as negociações não avançaram. Os países, divididos em grupos (ricos, emergentes e pobres, basicamente), mantêm viva a história da Torre de Babel, não falando a mesma língua. A confusão se dá pelo conflito de interesses. Os países ricos não aceitam diminuir (muito menor cortar) subsídios a produção de seus agricultores, o que dificulta a competitividade dos produtos que vem de países pobres e emergentes. Subsidiada, a produção agrícola dos países ricos fica mais barata para o consumo, deixando os produtos importados mais caros (os valores aumentam também pelas tarifas cobradas pelos governos) e, portanto, menos competitivos.
Estados Unidos e União Européia, pelos mais desenvolvidos, e o grupo denominado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), pelos emergentes, protagonizam os principais conflitos. A Argentina, importante produtora de alimentos, está mais do que nunca inserida nas negociações, devido a crise mundial da produção de alimentos. Com riscos de desabastecimento, os países produtores não exportam, temendo não atender às respectivas demandas internas. Com a diminuição da oferta, os preços para quem importa aumentam.
Falando em Argentina, o governo da presidente Cristina Kirchner sofreu recentemente um revés no Senado, que rejeitou aumento de impostos sobre as exportações agrícolas. O país tenta resolver problemas econômicos como a inflação, que está em alta.
Com o fracasso da Rodada Doha, o Brasil perderá oportunidades de aumento significativo de suas exportações. Um acordo dessa natureza, multilateral, abriria mercados não apenas para o país, mas também para o Mercosul (que une Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). E é justamente a integração ainda não consolidada do bloco que impede o Brasil de buscar a outra saída, acordos bilaterais (apenas entre um país e outro), como fazem México e Chile com os EUA.
Há alguns anos, falava-se em uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que reuniria todos os países do continente (excetuando-se Cuba, pelo embargo econômico imposto pelos EUA). A idéia não vingou devido às enormes diferenças entre os países. Se mesmo a União Européia, considerada um modelo de integração e com uma história de mais de 50 anos, ainda não se acertou (é só lembrar que a moeda comum, o euro, não é adotada por todos os países-membros, como a Inglaterra), acordos mais recentes, como o Mercosul (criado em 1995), encontram-se com problemas ainda maiores para resolver. Quando as integrações regionais estiverem consolidadas, talvez um acordo multilateral que envolva o planeta fique mais próximo. Enquanto os interesses particulares estiverem acima dos coletivos, nenhuma Rodada, seja de Doha ou de qualquer outro lugar, conseguirá ser bem sucedida.
FOTO: A Torre de Babel, pintura de Pieter Brueghel









